terça-feira, 8 de abril de 2008

"Retrato da infância"


Felicidade é a gente poder olhar para trás e encontrar esse vago mundo em “sol menor” que se chama infância. Adivinhação da vida. Bem sei que, com muita gente, acontece essa coisa estranha: torna-se adulto sem ter sido criança. Ou, o que é pior: ter sido criança sem ter tido infância. A infância, para mim, não é apenas e simplesmente uma idade, mas justamente aquele mundo de pequeninas coisas que tornam inconfundível na lembrança um tempo de alegria, um tempo em que conhecemos a felicidade sem ao menos nos apercebermos dela.


Uma vez escrevi:


“Infância mesmo a gente só pode ter depois de crescer.

Porque antes a gente não sabe.”


Não é uma pena que a gente só descubra a infância depois que ela passou? Que ela seja como um sonho de que só temos consciência quando acordamos, já adultos? Ah, se pudéssemos retornar o sonho, tão próximo e tão distante, interrompido pela vida, para revive-lo plenamente consciência, com os sentidos despertos.


Ocorrem-me agora aqueles versos:


“Mamãe - palavra azul, cor da distancia, quem não pode algum dia pronunciá-la,/nasceu, cresceu... mas nunca teve infância...”


Mas não quero referir-me somente aos que não conheceram seus pais, os que nasceram órfãos, os que nunca souberam o que significa um lar, mas aos que não tiveram a oportunidade de experimentar tantas e infinitas alegrias colhidas com liberdade e amor.

Os que nunca souberam pronunciar a palavra infância com todas as suas letras; não tiveram companheiros de aventuras; não sabem o sentido de coisas simples e inesquecíveis como bolas de gude, piões, papagaios, balões... Sou um homem feliz porque tive infância. E quantas vezes tenho fugido para ela, tentando reabastecer o coração de esperanças e ilusões. Sim: posso encontra-la viva, intensa, apenas volto o rosto, em cada curva da lembrança.

Por isso tenho escrito sobre suas recordações e sobre a sua eterna presença.


Releio outro poema, ainda inédito:


“Ah, a infância, esse país de lenda sem a ameaça da morte.”


Me lembro da minha infância: trago-a intacta dentro de mim, posso quase toca-la com as mãos. Nela fui rei e moleque. Ficaram em meu corpo suas marcas e cicatrizes e me orgulho delas como um combatente de suas medalhas. Cada uma tem uma história, encerra uma aventura. Vivi todos os seus riscos, junto aos companheiros. Ainda ouço a voz de minha mãe me repreendendo, quando voltava para casa:

- Já não disse que não quero você com aqueles moleques?


E quantas vezes ouvi também outras mães chamando por seus filhos e repreendendo-os com as mesmas palavras.

Me lembro de minha infância. Esbocei dela dois pequenos retratos no livro. A Outra Face. Um, com oito a dez anos, em Rio Branco no Acre, garoto solto, de beira-rio (sem o lirismo casiminiano), tomando banho nos igarapés, tirando alfenimna engenhoca, comendo cacau maduro na floresta; outro dos 11 aos 15 anos, aqui no Rio, em Botafogo, metido em “peladas”, e pescarias nas pedras atrás do morro da Viúva.

Fui rico de infância: tive uma, no interior, livre, em contato com a natureza, aprendendo com os bichos e as coisas; outra, na cidade grande, já sabido apavorando as tias, desencaminhando os primos; capitão de moleques. O velho rio é a moldura da primeira, sublinha a sua


Pergunto por ele num poema ainda por publicar:


“Onde estás, rio Acre, de Rio Branco, rio vermelho que o tempo azulou,

que corres para a distancia e que foges de mim?

Rio Acre da minha infância que sempre vais de onde eu vim...”


No livro Amo! há outras reminiscências, em tantas perguntas:


“Onde estão aqueles olhos cheios de desejos puros e que mesmo rebeldes olhavam para os céus?E aquela alma inquieta, como os caminhos nos campos, os varadouros e os igarapés alegres da floresta? E aqueles lábios que não conheciam o sabor dos beijos mas mordiam os bagos branquinhos e doces de ingá e a polpa suculenta dos cajus? Onde está o meu primeiro amor a menina de cabelos negros e de olhos da cor do rio que nunca será esquecida?”


E a resposta inexorável: “O tempo ladrão roubou/ de parceria com a vida...”


Meu Deus, quanta coisa, quanta coisa mesmo se passou. Será que isto tudo é meu ou foi alguém que contou?
Crônicas de JG de Araujo Jorge extraído do livro" No Mundo da Poesia "

(Edição do Autor -1969)

4 comentários:

Tânia Defensora disse...

Lindo post Fernanda!
Me fez reencontrar com a minha criança interior.
Só sendo adulto para saber o que é a infância e valorizá-la.
Beijos

Renata Emy disse...

Uso sempre esta frase:

"Eu era feliz e não sabia!"

=P

Beijos querida!

Cristiane Fetter disse...

Eu sempre digo, minha infância foi ótima, brinquei muito, demorei a amadurecer, fui criança completamente, e gostaria que isso acontecesse para meu filho, mas sei que não será assim, mas não custa nada tentar.
Adorei o post.
Depois passa lá no Tô Doida que tem um presente para você.
Beijocas

Georgia disse...

Oi, só lembrando que amanha 18 de Abril tem a Blogagem Coletiva “O que voce faz para acabar com o analfabetismo no Brasil?”

Abracos